Aposentadoria por Idade: Regras Atuais Pós-Reforma e Estratégias

Aposentadoria por Idade: Regras Atuais Pós-Reforma e Estratégias

Aposentadoria por Idade: Regras Atuais Pós-Reforma e Estratégias

A Aposentadoria por Idade sempre foi um dos benefícios mais aguardados pelos trabalhadores brasileiros e sofreu mudanças drásticas com a Reforma da Previdência de 2019. Compreender essas alterações não é apenas uma questão de burocracia, mas sim de garantir o sustento futuro e evitar prejuízos financeiros que podem durar o resto da vida. Muitas pessoas chegam ao meu escritório achando que basta completar a idade e pedir o benefício, mas a realidade exige muito mais atenção aos detalhes do seu histórico de trabalho.

A reforma trouxe novas exigências de idade e mudou a forma como o valor do benefício é calculado, o que pegou muitos segurados de surpresa nos últimos anos. Antes, tínhamos uma fórmula que descartava as menores contribuições e favorecia quem teve salários mais baixos no início da carreira, algo que hoje já não acontece automaticamente. Você precisa estar atento para não cair na armadilha de aceitar o primeiro valor que o INSS oferecer, pois muitas vezes esse cálculo pode estar abaixo do que você realmente tem direito.

Neste guia completo, vou conversar com você como se estivéssemos aqui na minha mesa, analisando o seu caso com calma e profundidade. Vamos explorar não apenas os requisitos básicos de idade e tempo, mas também as nuances do cálculo e as estratégias que utilizo diariamente para aumentar a renda mensal dos meus clientes. O objetivo é que você termine esta leitura com uma visão clara e prática do que precisa fazer para conquistar a melhor aposentadoria possível.

Entendendo a Nova Realidade da Aposentadoria por Idade[1][2][3][4][5]

O cenário da aposentadoria por idade mudou significativamente e exige que você abandone alguns conceitos antigos que costumava ouvir de parentes ou amigos aposentados há mais tempo. A regra geral agora estabelece um padrão mais rígido de idade, especialmente para as mulheres, e altera a lógica do tempo mínimo de contribuição para os homens que ingressaram no sistema recentemente.[6] Entender essa nova base é o primeiro passo para não criar expectativas falsas sobre a data da sua saída do mercado de trabalho.

Você deve ter em mente que a Previdência Social busca equilibrar as contas públicas com o aumento da expectativa de vida da população brasileira. Isso significa que as regras foram desenhadas para que as pessoas permaneçam ativas e contribuindo por mais tempo. Embora pareça injusto para quem trabalhou pesado a vida toda, é a regra do jogo atual, e meu papel é te ajudar a jogar da melhor forma possível dentro desse regulamento. Ignorar essas mudanças pode custar anos de espera ou uma redução drástica no valor final do seu benefício.

Outro ponto fundamental nesta nova realidade é a distinção entre quem já estava filiado ao INSS antes de novembro de 2019 e quem começou a trabalhar depois. Existem regras de transição e regras permanentes que convivem simultaneamente, criando uma confusão comum na cabeça dos segurados. Vamos desmistificar esses critérios agora, focando no que realmente importa para você saber quando poderá finalmente descansar com sua renda garantida.

A Idade Mínima para Homens e Mulheres Hoje[1][2][3][4][6][7]

A idade mínima para se aposentar por idade atingiu um patamar estável após o fim do período de transição progressiva para as mulheres. Hoje, a regra é clara e direta: mulheres precisam ter completado 62 anos de idade para ter direito ao benefício. Essa foi uma das mudanças mais sentidas, pois anteriormente a idade exigida era de 60 anos, e essa subida gradual terminou recentemente, fixando-se no novo patamar.

Para os homens, a notícia é um pouco mais estável, pois a idade mínima permaneceu em 65 anos, a mesma exigida antes da reforma.[2][3] No entanto, é importante que você, homem, não se acomode com essa informação, pois a idade sozinha não garante nada sem o tempo de contribuição correspondente. Vejo muitos casos de homens que completam 65 anos e correm para o INSS, apenas para descobrir que possuem buracos no tempo de recolhimento que impedem a concessão imediata.

A fixação dessas idades reflete a nova demografia do Brasil, mas traz desafios específicos para quem trabalha em profissões desgastantes. Se você ainda não atingiu essa idade, é crucial planejar sua vida financeira considerando que terá que trabalhar até os 62 ou 65 anos. Não há mais a possibilidade de se aposentar puramente por tempo de contribuição com idades muito baixas como 50 ou 53 anos na regra geral, o que torna a aposentadoria por idade a modalidade mais comum para a grande massa de trabalhadores.

O Tempo de Contribuição e a Carência Exigida[1][2][4][6][7][8][9]

O tempo de contribuição é o segundo pilar da aposentadoria por idade e costuma ser onde a maioria dos problemas acontece. Para as mulheres, o tempo mínimo exigido continua sendo de 15 anos de contribuição.[2][8] Isso significa que você precisa ter, comprovadamente, 180 meses de pagamentos ao INSS para destravar o seu benefício ao atingir os 62 anos.[2] Parece pouco para quem trabalhou a vida toda, mas a informalidade no mercado de trabalho brasileiro muitas vezes deixa lacunas que dificultam atingir essa meta.

Para os homens, a regra tem uma pegadinha importante dependendo de quando você começou a contribuir. Para quem já estava no sistema antes da reforma de 2019, o tempo mínimo permanece em 15 anos.[7] Mas atenção: essa regra de 15 anos para homens é válida apenas para os segurados “antigos”. É um alívio para quem já tem uma longa estrada de trabalho, mas exige comprovação rigorosa de cada mês recolhido para não haver surpresas na contagem final.

Além do tempo de contribuição, existe o conceito de carência, que é ligeiramente diferente, mas igualmente vital. A carência exige que as contribuições tenham sido feitas em dia, especialmente para quem é autônomo ou empresário. Você não pode simplesmente pagar 15 anos de atrasados de uma só vez e pedir a aposentadoria no dia seguinte. O INSS exige que um número mínimo de contribuições mensais tenha sido pago na data correta para valer como carência, e a falta desse requisito é um dos maiores motivos de indeferimento de benefícios no meu escritório.

A Diferença Crucial para Quem Entrou Depois de 2019[1]

Se você é um jovem trabalhador ou alguém que começou a contribuir para a Previdência Social apenas após a promulgação da Reforma em novembro de 2019, a regra para homens é mais dura. Para este grupo de novos filiados, o tempo mínimo de contribuição para o homem subiu de 15 para 20 anos.[6] Essa mudança visa retardar o acesso ao benefício e aumentar a arrecadação a longo prazo, mas afeta diretamente o planejamento de quem está começando agora.

Essa diferença de 5 anos a mais para os novos segurados homens cria um abismo entre as gerações. Se você começou a trabalhar formalmente em 2020, por exemplo, precisará comprovar 240 meses de contribuição, e não mais 180. Isso exige uma disciplina previdenciária muito maior, pois períodos de desemprego ou trabalho informal pesarão muito mais na sua conta final lá na frente.

Para as mulheres que entraram no sistema após 2019, o tempo mínimo permaneceu em 15 anos, mantendo a igualdade com a regra anterior nesse aspecto. No entanto, é fundamental que você entenda em qual grupo se encaixa. Se você teve nem que seja uma única contribuição antes de novembro de 2019, você se enquadra na regra antiga dos 15 anos (para homens).[7] Por isso, sempre busco aquela carteira de trabalho antiga ou um carnê perdido dos meus clientes para tentar enquadrá-los na regra de transição, que é mais benéfica.

O Cálculo do Benefício: Onde Mora o Perigo

O cálculo do valor da aposentadoria é, sem dúvida, o ponto mais sensível e prejudicial da Reforma da Previdência. Antes, tínhamos uma fórmula que protegia o trabalhador ao descartar os menores salários, garantindo uma média mais alta. Hoje, a regra mudou para incluir todo o seu histórico contributivo, o que, na prática, puxa o valor do benefício para baixo na maioria dos casos. Entender essa matemática é essencial para não se frustrar ao receber a carta de concessão.

Você precisa saber que o valor da sua aposentadoria não será necessariamente igual ao seu último salário, nem mesmo à média dos seus melhores anos. O novo sistema considera 100% dos seus salários de contribuição desde julho de 1994. Isso significa que aquele salário de estagiário ou aquele emprego temporário que pagava pouco no início da carreira vai entrar na conta e diminuir a sua média final. É uma mudança dura, mas que pode ser mitigada com algumas estratégias de planejamento que veremos adiante.

Além da mudança na média, a alíquota aplicada sobre essa média também foi alterada, e raramente alguém consegue receber 100% da média salarial logo de cara. O sistema foi desenhado para pagar um valor inicial menor, que cresce conforme você tem mais anos de contribuição além do mínimo exigido. Vamos mergulhar nos detalhes desse cálculo para que você possa projetar quanto realmente vai cair na sua conta todo mês.

O Fim da Média dos 80% Maiores Salários

Até a reforma de 2019, o INSS calculava sua média salarial descartando os 20% menores salários de contribuição. Isso era excelente, pois limpava do seu histórico aqueles períodos de vacas magras, inícios de carreira ou momentos de crise financeira em que você contribuiu sobre o salário mínimo. A média final ficava robusta, refletindo melhor o seu padrão de vida nos momentos mais prósperos da sua carreira.

Com a nova regra, o “descarte automático” dos 20% menores acabou. Agora, a média aritmética simples inclui todos os seus salários de contribuição desde julho de 1994 até o mês anterior ao pedido da aposentadoria. O impacto disso é matemático e cruel: ao incluir valores baixos na soma, a média geral cai. Tenho clientes que perderam quantias significativas na renda mensal apenas por causa dessa alteração na metodologia de cálculo.

No entanto, nem tudo está perdido. Existe uma regra específica de “descarte voluntário” que pode ser aplicada se você tiver tempo de contribuição sobrando além do mínimo. Mas isso exige um cálculo cirúrgico. Você não pode simplesmente pedir para o INSS descartar salários sem saber se isso vai comprometer seu tempo mínimo de 15 ou 20 anos. É uma faca de dois gumes que precisa ser manuseada com extremo cuidado por um profissional.

Entendendo a Alíquota de 60% mais 2%[1][10]

Depois de calcular a média de todos os seus salários, o INSS não paga esse valor integralmente a você. A regra geral define que o valor da aposentadoria será de 60% dessa média para quem cumpre apenas o tempo mínimo (15 anos para mulheres e 15 ou 20 anos para homens). Ou seja, se a sua média salarial de vida foi de R

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 1.800,00 se tiver apenas o tempo mínimo exigido.

Para aumentar essa porcentagem, você precisa ter contribuído por mais tempo.[7][10] A regra diz que você ganha mais 2% para cada ano de contribuição que exceder 15 anos (para mulheres) ou 20 anos (para homens).[1][10] Isso significa que, para uma mulher receber 100% da sua média salarial, ela precisa ter contribuído por 35 anos. Para o homem, seriam necessários 40 anos de contribuição para atingir os 100%.

Essa progressão lenta torna muito difícil para o trabalhador comum atingir o valor integral da sua média. A maioria das pessoas se aposenta com algo entre 60% e 70% da média, o que representa uma queda brusca no padrão de vida. Por isso, insisto tanto na importância de verificar se existem períodos não contabilizados no seu extrato, como tempo rural ou especial, que possam aumentar seu tempo de contribuição e, consequentemente, essa porcentagem.

O Fenômeno do Descarte de Contribuições[7]

Uma novidade interessante trazida pela reforma é a possibilidade de excluir contribuições que prejudicam sua média, desde que você mantenha o tempo mínimo necessário para se aposentar. Imagine que você tem 18 anos de contribuição como mulher (3 anos a mais que o mínimo de 15) e nesses 3 anos excedentes você contribuiu sobre o salário mínimo, enquanto no resto da vida contribuiu sobre o teto.

Nesse cenário, podemos pedir ao INSS para “jogar fora” esses 3 anos de salários baixos. Ao fazer isso, eles deixam de puxar sua média para baixo. O tempo de contribuição cai para 15 anos, o coeficiente permanece em 60%, mas a base de cálculo (a média) sobe drasticamente. Já vi casos em que essa manobra aumentou o benefício em mais de R$ 1.000,00 mensais. É o que chamamos de “milagre da contribuição única” em casos extremos, embora essa brecha específica tenha sido ajustada em 2022, o conceito de descarte ainda é válido e poderoso.

Mas cuidado: ao descartar contribuições para aumentar a média, você perde esse tempo para qualquer outra finalidade, inclusive para a contagem dos 2% adicionais. É um jogo de equilíbrio matemático. Você precisa simular se vale mais a pena ter uma média alta com coeficiente menor (60%) ou uma média mais baixa com um coeficiente maior (ex: 66%). Nunca tome essa decisão sem uma planilha de cálculos detalhada na sua frente.

Regras de Transição e Direito Adquirido[1][4][6]

As regras de transição foram criadas para amortecer o impacto da reforma para quem já estava próximo da aposentadoria. Elas são um labirinto de opções e, muitas vezes, a regra de transição da aposentadoria por idade é confundida com as regras por tempo de contribuição (como o sistema de pontos ou pedágio). É vital saber diferenciar o que se aplica ao seu caso para escolher o melhor caminho.

O direito adquirido é a “carta na manga” de quem completou os requisitos antigos antes de 12/11/2019. Se você já tinha 60 anos (mulher) ou 65 anos (homem) e 15 anos de contribuição naquela data, você não precisa se preocupar com as novas regras de cálculo ou idade. Você pode se aposentar hoje com as regras antigas, que geralmente são muito mais vantajosas financeiramente. Sempre verifico isso primeiro em qualquer atendimento.

Para quem não tinha o direito adquirido, restam as regras de transição. Na aposentadoria por idade, a transição foi focada no aumento gradual da idade da mulher. Hoje, essa transição já se completou, atingindo o teto de 62 anos. No entanto, entender como foi esse processo ajuda a verificar se você talvez já não tivesse direito em anos anteriores (2020, 2021, 2022) e não sabia, podendo pedir os atrasados desde aquela época.

Quem Ainda Tem Direito às Regras Antigas?

O conceito de direito adquirido é sagrado no direito previdenciário. Significa que, se você cumpriu as condições exigidas pela lei na época em que ela estava vigente, esse direito incorporou ao seu patrimônio jurídico. Mesmo que você peça a aposentadoria em 2026, se os requisitos foram preenchidos em outubro de 2019, o INSS é obrigado a calcular seu benefício com a lei de 2019.

Isso é extremamente relevante para mulheres que tinham 60 anos e 15 anos de contribuição antes da reforma, mas continuaram trabalhando. Muitas acham que agora são obrigadas a esperar até os 62 ou aceitar o cálculo novo. Isso não é verdade. Você pode optar pela regra antiga, com o descarte dos 20% menores salários e divisor mínimo mais favorável. É uma análise que pode salvar o valor do seu benefício.

Para identificar se você tem direito adquirido, precisamos fazer uma viagem no tempo no seu CNIS (Cadastro Nacional de Informações Sociais). Olhamos a data exata em que você completou a idade e o tempo de carência. Muitas vezes, um período rural na juventude ou um vínculo empregatício que não estava no sistema pode ser a chave para retroagir a data do cumprimento dos requisitos para antes da reforma.

A Estabilidade da Idade para Mulheres em 62 Anos[2][3][4][6][7][8]

Durante os anos logo após a reforma (2020 a 2022), a idade mínima da mulher subiu 6 meses a cada ano. Começou em 60 anos e meio, foi para 61, 61 e meio…[2] Isso gerou muita confusão e ansiedade. Havia uma corrida contra o tempo. Hoje, em 2025 e 2026, essa regra estabilizou em 62 anos. Não há previsão de novo aumento automático na lei atual, o que traz uma certa previsibilidade para o seu planejamento.

Essa estabilidade permite que você se organize com mais calma. Se você é mulher e tem 60 anos hoje, sabe que faltam exatamente 2 anos para atingir o requisito etário. Não há mais aquele medo de “a regra mudar enquanto estou na fila”. Essa clareza é fundamental para definir quando parar de trabalhar ou quando começar a pagar contribuições facultativas para completar a carência.

Apesar da estabilidade, a crítica permanece: o salto de 60 para 62 anos excluiu muitas mulheres do mercado de trabalho que já contavam com a aposentadoria mais cedo. Para essas segurados, a estratégia agora é focar em aumentar o valor do benefício durante esses 2 anos extras de espera, transformando o tempo a mais em dinheiro no bolso através de contribuições estratégicas.

Aposentadoria Híbrida e Rural: Detalhes Importantes

Não podemos falar de aposentadoria por idade sem mencionar a modalidade híbrida e a rural. A aposentadoria por idade rural mantém idades reduzidas: 55 anos para mulheres e 60 anos para homens. Essa é uma exceção importantíssima que a reforma manteve. Se você trabalha na roça, em regime de economia familiar, essas são as suas metas, e não os 62/65 anos da regra urbana.

Já a aposentadoria híbrida é a “salvação” de quem migrou do campo para a cidade. Ela permite somar o tempo de trabalho rural (muitas vezes sem contribuição direta, apenas prova de atividade) com o tempo de contribuição urbana para atingir os 15 anos de carência exigidos. A idade exigida para a híbrida, no entanto, segue a regra urbana: 62 anos para mulheres e 65 para homens.[2][3]

Vejo muitos clientes que trabalharam na roça até os 20 anos e depois vieram para a cidade. Eles chegam aos 65 anos com apenas 10 anos de carteira assinada e acham que nunca vão se aposentar. Quando averbamos esses 5 ou 6 anos de trabalho rural da juventude, completamos os 15 anos necessários e a aposentadoria é concedida. É um direito pouco explorado e que você deve investigar na sua história de vida.

Planejamento Previdenciário: O Segredo do Melhor Benefício

O planejamento previdenciário deixou de ser um luxo e virou uma necessidade básica. Com regras tão complexas e cálculos que podem variar milhares de reais, confiar na sorte ou no simulador automático do INSS é um risco enorme. O planejamento consiste em analisar toda a sua vida laboral, corrigir erros e projetar o melhor momento para pedir o benefício.

Um bom planejamento pode revelar, por exemplo, que trabalhar mais 6 meses mudará seu coeficiente de 60% para 62%, ou que pagar uma guia atrasada de 5 anos atrás pode antecipar sua aposentadoria. É um estudo matemático e jurídico personalizado. Não existe receita de bolo; o que funcionou para o seu vizinho pode ser desastroso para o seu caso.

Eu costumo dizer que a aposentadoria é o “salário” que você vai receber até o fim da vida. Você aceitaria assinar um contrato de emprego vitalício sem ler as cláusulas ou negociar o salário? Provavelmente não. Então, por que aceitar qualquer valor de aposentadoria sem lutar pelo melhor? Vamos ver algumas estratégias práticas que uso nos planejamentos.

Regularizando Pendências no CNIS Antes de Pedir

O CNIS é o coração da sua aposentadoria. Se uma informação está errada lá, sua aposentadoria sairá errada ou será negada. Um erro clássico são vínculos de emprego que não têm data de saída. Para o sistema do INSS, aquele vínculo nunca terminou, o que pode travar a contagem de tempo ou impedir o reconhecimento de contribuições posteriores.

Antes de dar entrada no pedido, você precisa fazer um “pente fino” no seu extrato CNIS. Verifique se todos os salários estão lançados corretamente. É comum empresas não repassarem as contribuições ou declararem valores menores. Se você tem os holerites ou a carteira de trabalho, podemos pedir a retificação desses dados (acerto de vínculos e remunerações) antes mesmo de pedir o benefício.

Outro problema comum são indicadores de pendência, aquelas siglas estranhas (como PEXT, AEXT) que aparecem no lado direito do extrato. Elas são avisos de que o INSS precisa de documentos complementares para validar aquele período. Resolver isso preventivamente acelera a concessão do seu benefício em meses, evitando que seu processo caia em exigência e fique parado na fila.

A Importância de Averbar Tempo Especial e Rural

Já mencionei o tempo rural, mas o tempo especial é outro tesouro escondido. Se você trabalhou exposto a ruído, calor, agentes químicos ou biológicos (como médicos, enfermeiros, metalúrgicos, vigilantes) antes da reforma de 2019, você pode ter direito a converter esse tempo especial em tempo comum com um acréscimo de 40% (homem) ou 20% (mulher).

Esse acréscimo pode ser o que falta para você atingir os 15 ou 20 anos de contribuição, ou para aumentar o seu coeficiente de cálculo acima dos 60%. Mesmo na aposentadoria por idade, averbar tempo especial antigo vale muito a pena.[2] Infelizmente, a reforma acabou com a conversão de tempo especial trabalhado após novembro de 2019, mas o direito ao período anterior permanece intacto.

Reunir a documentação para isso (o famoso formulário PPP – Perfil Profissiográfico Previdenciário) dá trabalho. Muitas empresas fecharam ou se recusam a fornecer. Por isso, essa busca deve começar meses ou anos antes do pedido de aposentadoria. Deixar para a última hora é garantia de dor de cabeça e atraso no recebimento.

Contribuições Facultativas: Quando Valem a Pena?

Muitas pessoas me perguntam: “Doutora, vale a pena pagar o INSS por conta própria para aumentar minha aposentadoria?”. A resposta é: depende do cálculo. Se você está longe de se aposentar e quer garantir a qualidade de segurado, sim.[2] Mas se o objetivo é aumentar o valor final, precisamos fazer contas.

Pagar sobre o teto nos últimos anos raramente eleva a média o suficiente para justificar o investimento, devido à regra que considera todos os salários desde 1994. Às vezes, você gasta R

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 50,00 mensais. O retorno desse investimento levaria décadas.

Por outro lado, contribuições facultativas podem ser essenciais para completar a carência de 15 anos. Se faltam 6 meses para você atingir o tempo mínimo, pagar essas contribuições é obrigatório para ter acesso ao benefício. A chave é pagar o valor certo: nem mais do que precisa (jogando dinheiro fora), nem menos do que o mínimo (que não conta para nada).

Evitando Armadilhas no Momento do Requerimento

Chegou a hora H. Você completou a idade, reuniu os documentos e vai fazer o pedido. É aqui que muitos escorregam na casca de banana. O sistema “Meu INSS” é prático, mas também é automatizado e frio. Ele não vai te avisar se você está cometendo um erro que vai reduzir sua renda.

Um clique errado pode significar aceitar uma aposentadoria com valor menor do que o devido. O INSS, por lei, deveria conceder o melhor benefício possível, mas na prática, o robô concede o primeiro que encontra requisitos. Se você tinha direito a uma regra de transição melhor, mas o sistema processou outra, você terá que brigar na justiça depois para rever isso.

Além disso, a ansiedade de receber logo o primeiro pagamento faz com que muitos segurados aceitem o benefício sem conferir a memória de cálculo. Depois que você saca o primeiro pagamento e o PIS/PASEP, a aposentadoria torna-se irreversível (a chamada desaposentação não é mais permitida). Portanto, a cautela no momento do “aceite” é sua última linha de defesa.

O Perigo de Pedir Aposentadoria Sem Analisar o Extrato

Nunca, jamais peça sua aposentadoria “no escuro”. Vejo pessoas que entram no site, clicam em “pedir aposentadoria” e esperam o resultado. Isso é um tiro no pé. Antes de clicar nesse botão, você precisa ter certeza absoluta de que o tempo que o INSS mostra no simulador condiz com a realidade da sua carteira de trabalho.

O simulador do INSS erra, e erra muito. Ele não contabiliza tempos de processo trabalhista, não reconhece tempo rural automaticamente e falha em converter tempo especial. Se você confia apenas nele, pode estar deixando anos de contribuição para trás. O ideal é ter sua própria contagem de tempo feita por um profissional para confrontar com a do INSS.

Se houver divergência, o pedido deve ser feito com a juntada de documentos que provem o tempo que falta. Você deve digitalizar carteiras, certidões, PPPs e anexar ao pedido, explicando explicitamente: “O INSS conta 14 anos, mas eu tenho 16 anos por causa do vínculo tal”. Sem essa intervenção manual, o robô vai indeferir seu pedido ou conceder errado.

Contribuições Abaixo do Salário Mínimo não Contam

Essa é uma armadilha cruel da nova legislação. Desde a reforma, qualquer contribuição feita em valor inferior ao salário mínimo vigente não conta para absolutamente nada: nem para tempo de contribuição, nem para carência, nem para manter a qualidade de segurado. É como se você não tivesse pago.

Isso afeta muito quem trabalha intermitente, horistas ou autônomos que pagaram a guia errada. Se você tem meses nessa situação no seu extrato, eles aparecerão com um indicador de pendência. Você precisa “complementar” essas contribuições, pagando a diferença (DARF) para atingir o mínimo, ou “agrupar” competências (somar dois meses baixos para formar um válido).

Se você não fizer esses ajustes antes de pedir a aposentadoria, o INSS vai simplesmente ignorar esses meses. Imagine chegar aos 62 anos crente que tem 15 anos de contribuição, e descobrir que na verdade só tem 14 anos válidos porque 12 meses foram recolhidos abaixo do mínimo. A frustração é imensa e o remédio é pagar as diferenças com juros e multa.

Por Que Contratar um Especialista Faz Diferença

Você pode estar pensando: “Samara, você é advogada, é claro que vai dizer para contratar um advogado”. Mas a verdade é que a previdência virou um emaranhado tributário e matemático. Tentar navegar sozinho é possível, mas o risco de prejuízo financeiro oculto é altíssimo. Um especialista não apenas preenche formulários; ele desenha a estratégia.

O advogado previdenciário vai analisar se vale a pena esperar mais alguns meses para pegar uma regra de cálculo melhor, vai identificar documentos que você nem sabia que precisava e vai lutar administrativamente e judicialmente se o INSS errar (o que acontece com frequência). O custo dos honorários costuma ser uma fração do ganho que você terá ao receber um benefício correto e vitalício.

Pense na sua aposentadoria como o maior investimento da sua vida. Você passou 20, 30, 40 anos pagando por isso. Tratar o momento da colheita com amadorismo pode custar a tranquilidade da sua velhice. Se informe, planeje, faça cálculos e, se sentir insegurança, busque ajuda profissional. Seu futuro agradece