Assédio moral no trabalho: exemplos e como provar

Assédio moral no trabalho: exemplos e como provar

Assédio moral no trabalho: exemplos e como provar

Você já sentiu aquele frio na barriga só de pensar em ir para o trabalho na segunda-feira? Não falo daquela preguiça comum de início de semana. Falo de medo. Falo de angústia.

Trabalho com direito trabalhista há anos e vejo essa história se repetir com uma frequência assustadora. O cliente chega ao meu escritório, senta na cadeira, respira fundo e diz que não aguenta mais.

Muitas vezes, ele nem sabe nomear o que está vivendo. Acha que é incompetência dele. Acha que está “sensível demais”. Mas, na maioria das vezes, o nome disso é assédio moral.

E aqui entre nós, como advogada, preciso te dizer uma coisa: a lei não permite que ninguém destrua sua saúde mental em troca de um salário.

O ambiente de trabalho deve ser um local de produção e crescimento. Nunca um campo de batalha onde sua dignidade é a primeira baixa.

Vamos conversar sobre como identificar isso, os exemplos que vejo todo dia e, o mais importante, como você vai provar isso se decidir buscar seus direitos.

O que configura assédio moral (e o que é apenas gestão rígida)

Essa é a primeira dúvida que tiro em quase toda consulta. Existe uma linha tênue, mas muito clara para nós advogados, entre um chefe exigente e um assediador.

A cobrança de metas faz parte do jogo corporativo.[3] O feedback negativo sobre um trabalho malfeito também. O empregador tem o que chamamos de poder diretivo. Ele pode organizar o serviço e cobrar resultados.[3]

O assédio moral começa quando esse poder vira abuso. A palavra-chave aqui é repetição.

Não estamos falando de uma bronca isolada em um dia de estresse. Estamos falando de uma conduta abusiva, frequente e intencional que visa diminuir você.[1][3][5][6][7][8]

É aquela gota d’água que cai todo dia na sua cabeça até fazer um buraco. O objetivo, consciente ou não, é desestabilizar o trabalhador emocionalmente.[1][5][6][8]

Muitas vezes, a intenção é forçar um pedido de demissão.[1][3][6] A empresa quer que você saia, mas não quer pagar a multa rescisória. Então, transformam sua vida num inferno.

Outro ponto crucial é a exposição. O chefe rígido cobra no particular. O assediador adora uma plateia. Ele critica seu trabalho na frente dos colegas para gerar humilhação.

Isso fere o princípio da dignidade da pessoa humana.[2][5] E é aí que o Direito do Trabalho entra com os dois pés na porta.

Você precisa analisar o contexto. Se a cobrança é por trabalho, ok. Se a cobrança é sobre sua personalidade, suas características físicas ou feita para te isolar, temos um problema jurídico.

Os tipos mais comuns de assédio que vejo no escritório

A gente costuma achar que assédio só vem de cima para baixo. Do chefe para o subordinado.[1][2] Esse é o clássico, chamado de assédio vertical descendente.

É o gerente que grita, que ameaça demitir toda semana, que dá apelidos pejorativos. É o tipo mais comum nas reclamações trabalhistas que atendo.

Mas você sabia que existe o contrário? O assédio vertical ascendente. Acontece quando a equipe se une para boicotar um chefe novo, por exemplo.

Eles sonegam informações, ignoram ordens e criam um ambiente hostil para derrubar o superior. É mais raro de provar, mas acontece.

Também vejo muito o assédio horizontal. É aquela briga de colegas do mesmo nível hierárquico.

Pode ser por competitividade excessiva ou pura discriminação. Um colega espalha boatos sobre o outro, isola a pessoa no almoço, faz piadas constantes.

Se a empresa sabe disso e não faz nada, ela se torna conivente. E aí a responsabilidade recai sobre ela também.

Por fim, temos o assédio misto.[5] É quando a vítima leva pancada de todos os lados. O chefe assedia e os colegas, por medo ou para ganhar pontos com o chefe, entram na onda.

Nesses casos, a sensação de isolamento é brutal. A pessoa sente que não tem para onde correr dentro da empresa.

Identificar de onde vem o tiro é o primeiro passo para montar sua estratégia de defesa.

Exemplos clássicos que vão além do grito

Muita gente acha que assédio é só gritaria. Quem dera fosse só isso. O assédio silencioso é muitas vezes o mais perverso.

Vou te dar exemplos práticos que já vi virarem processos vitoriosos.

Primeiro: o “Geladeira”. A empresa tira todas as suas funções. Você chega no horário, senta na sua mesa e não tem nada para fazer.

Parece um sonho? É uma tortura psicológica. A mensagem que passam é: “você é inútil aqui”. Isso destrói a autoestima profissional de qualquer um em poucas semanas.

Segundo: Metas impossíveis. O gestor coloca uma meta que ele sabe que é inatingível. E quando você não bate, ele usa isso para te humilhar ou te dar advertências.

Terceiro: Controle excessivo e injustificado. O chefe controla suas idas ao banheiro. Cronometra quanto tempo você leva para beber água.

Isso não é gestão, é vigilância abusiva. Tratar um adulto como uma criança irresponsável é uma forma de degradação.

Quarto: Transferência de setor como punição. Mudar você para uma sala sem janelas, longe de todos, ou para uma função muito abaixo da sua qualificação.

Quinto: Boicote de instrumentos de trabalho. Eles te dão o pior computador, a internet mais lenta, ou “esquecem” de te passar os e-mails importantes.

Depois te cobram o resultado igual ao dos outros. É uma armadilha montada para você falhar.

Essas situações, quando repetidas, formam o quadro perfeito do assédio moral.

Como provar assédio moral: O guia prático da prova

Aqui é onde a maioria dos trabalhadores trava. “Dra. Samara, eu sei o que estou passando, mas é a minha palavra contra a dele”.

Não necessariamente. No direito, quem alega tem que provar.[3][7][9] E provar assédio exige inteligência e sangue frio. Você precisa virar um detetive da sua própria vida laboral.

Não adianta chegar no juiz e dizer “ele me olhou feio”. Precisamos de materialidade. Precisamos reconstruir a história com fatos.

Vamos dividir isso em três pilares fundamentais que uso nos meus processos.

O poder do registro documental e diário de bordo

A primeira coisa que peço para meus clientes: façam um diário. Pode ser um caderno ou um arquivo no celular.

Anote tudo. Dia, hora, local, quem estava presente e o que foi dito exatamente. Descreva a roupa que a pessoa usava se lembrar.

Esses detalhes dão credibilidade ao seu relato. Num depoimento em audiência, a coerência desses detalhes faz toda a diferença para o juiz.

Além do diário, salve tudo o que for escrito. E-mails com cobranças absurdas? Salve. Mensagens de WhatsApp fora do horário ou com tom agressivo? Print neles.

Lembre-se de fazer a Ata Notarial se as mensagens forem muito graves. O cartório atesta que aquele conteúdo é real e está no seu celular.

Bilhetes deixados na mesa, avisos no mural, circulares. Tudo isso é documento. Não jogue nada fora.

Às vezes, a prova não está no que foi dito, mas na contradição. O e-mail elogiando seu trabalho mês passado versus a advertência por “insuficiência técnica” hoje.

Gravações de áudio e vídeo são aceitas na justiça?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares. A resposta curta é: sim, você pode gravar uma conversa da qual você participa.

Você não precisa da autorização do seu chefe para gravar uma reunião onde você está presente. Isso é considerado gravação clandestina, mas é lícita para defesa de direitos.

O que você não pode fazer é deixar um gravador na sala dele e sair para o almoço. Isso é grampo ilegal e é crime.

Mas ligar o gravador do celular no bolso durante aquela reunião onde ele costuma te humilhar? Totalmente válido como meio de prova.

Já ganhei casos onde a única prova cabal era um áudio de 3 minutos onde o gestor perdia a linha. O tom de voz, as palavras chulas, a agressividade… o áudio transmite o que o papel não consegue.

Só tenha cuidado com a cadeia de custódia da prova. Mantenha o arquivo original intocado.

A prova testemunhal e a dificuldade do silêncio[7]

Testemunha é a rainha das provas na Justiça do Trabalho. Mas no caso de assédio, ela costuma ser a mais difícil de conseguir.

Seus colegas ainda estão empregados. Eles têm medo de sofrer represálias ou perder o emprego se depuserem a seu favor. É compreensível.

Por isso, ex-funcionários são as melhores testemunhas. Aquela pessoa que também sofreu na mão do mesmo chefe e já saiu da empresa.

Essa pessoa não tem mais vínculo e nem medo. Ela geralmente tem vontade de fazer justiça.

Tente manter contato com quem sai da empresa. Essas pessoas podem ser a chave para validar sua história.

E lembre-se: a testemunha não precisa ter visto tudo. Se ela presenciou um único episódio de humilhação, já ajuda a montar o quebra-cabeça.

O juiz analisa o conjunto probatório. Um indício aqui, um documento ali e uma testemunha acolá formam a convicção do magistrado.

Consequências jurídicas: Seus direitos na mesa

Provado o assédio, o que você ganha com isso? Não é sobre vingança, é sobre reparação. A lei prevê mecanismos para proteger o trabalhador lesionado.[2][3][6]

Não estamos falando apenas de dinheiro, embora ele seja uma parte importante da punição pedagógica para a empresa.[3] Estamos falando de encerrar um ciclo de abuso com dignidade.

Vamos ver as três principais consequências legais que busco para meus clientes.

A rescisão indireta do contrato de trabalho[10]

Imagine que você quer sair, mas não quer pedir demissão e perder seus direitos (aviso prévio, multa de 40% do FGTS, seguro-desemprego).

A rescisão indireta é a “justa causa” que o empregado dá na empresa. O artigo 483 da CLT é claro.

Se o empregador não cumpre suas obrigações ou pratica atos lesivos à honra e boa fama, você pode considerar o contrato rescindido.[2]

Na prática, você sai da empresa recebendo tudo como se tivesse sido demitido sem justa causa. É o caminho para sair de cabeça erguida e bolso protegido.

É uma ação que exige provas robustas, pois o juiz precisa se convencer de que a relação de trabalho se tornou insustentável.

Indenização por danos morais e materiais[2][3]

A reparação financeira pelo sofrimento. O dano moral visa compensar a dor, a angústia e a humilhação.

O valor depende da gravidade da ofensa, do porte da empresa e do salário do trabalhador.[3] A Reforma Trabalhista tabelou alguns valores, mas os juízes ainda analisam o caso concreto.

Se o assédio te causou doenças que exigiram gastos com remédios e médicos, pedimos também os danos materiais.

Você deve guardar todos os recibos de psiquiatra, psicólogo e farmácia. Tudo isso entra na conta da indenização.

Se a doença te incapacitou para o trabalho, podemos pedir até uma pensão mensal enquanto durar a incapacidade.

A responsabilidade da empresa na prevenção[10]

A empresa responde pelos atos de seus gestores e empregados. Não adianta o dono dizer “eu não sabia”.

Ele tem o dever de vigiar e criar um ambiente saudável.[2] A culpa é considerada “in vigilando” (falta de vigilância) ou “in eligendo” (escolheu mal o chefe).

Quando a justiça condena a empresa, o objetivo também é pedagógico. É fazer doer no bolso para que ela tome medidas preventivas.

Isso força as companhias a criarem códigos de conduta e treinamentos. Seu processo pode ajudar a evitar que outros passem pelo que você passou.

O Impacto Invisível na Saúde do Trabalhador[3]

O assédio moral não fica da porta da empresa para fora. Você leva ele para casa. Você leva para a cama na hora de dormir.

Como advogada, vejo a degradação física dos meus clientes. A pessoa entra no escritório vibrante e, meses depois, é uma sombra de si mesma.

O corpo humano não foi feito para viver sob estado de alerta constante. O estresse crônico cobra um preço biológico altíssimo.

Quando o corpo fala: Sintomas psicossomáticos

Começa com uma dor de cabeça que não passa. Depois vem a gastrite, a úlcera nervosa. A pele enche de alergias sem explicação aparente.

Isso é somatização. Sua mente está gritando por socorro e, como você não ouve (ou não pode ouvir por medo do desemprego), o corpo assume o controle.

Já vi clientes com queda de cabelo severa (alopecia) desencadeada puramente pelo terror psicológico imposto pelo chefe.

Insônia é quase regra. Ou você não dorme, ou acorda exausto. A hipertensão também aparece com frequência em pessoas jovens submetidas a essa pressão.

Esses relatórios médicos são provas. Eles mostram o nexo temporal: você era saudável antes e adoeceu durante o contrato de trabalho.

Burnout e a conexão direta com o assédio

A Síndrome de Burnout agora é reconhecida como doença ocupacional. E o assédio é um dos maiores combustíveis para ela.

Não é só excesso de trabalho. É o excesso de trabalho combinado com a falta de reconhecimento e o tratamento indigno.

O esgotamento profissional total. A pessoa “trava”. Não consegue nem ligar o computador sem ter uma crise de ansiedade.

Se o seu médico diagnosticar Burnout, isso fortalece muito a tese de assédio moral organizacional. Mostra que o ambiente é tóxico.

O afastamento previdenciário (B-91) e a estabilidade

Se você adoecer a ponto de precisar se afastar por mais de 15 dias, entra o INSS. Aqui tem um detalhe técnico vital.

Você precisa lutar para que o perito do INSS reconheça o código B-91 (auxílio-doença acidentário) e não o B-31 (comum).

O B-91 reconhece que sua doença veio do trabalho. Isso te garante estabilidade de 12 meses no emprego após a alta. A empresa não pode te demitir quando você voltar.

Além disso, a empresa é obrigada a continuar depositando seu FGTS durante o afastamento, o que não ocorre no auxílio comum.

Estratégias de Defesa Antes do Processo

Nem sempre correr para o judiciário é a primeira ou única opção.[3][5] Às vezes, podemos tentar resolver ou criar provas antes de processar.[7]

Como advogada, gosto de preparar o terreno. Um processo bem instruído começa muito antes da petição inicial.

Existem movimentos estratégicos que você pode fazer enquanto ainda está trabalhando para se proteger.[6]

O uso estratégico dos canais de denúncia internos

Grandes empresas têm canais de compliance ou ouvidoria. Use-os. Mas use com inteligência.

Faça a denúncia por escrito. Guarde o protocolo. Tire print da tela de envio.

Muitas vezes a empresa não faz nada. Mas o fato de você ter denunciado e ela ter se omitido é uma prova de ouro contra ela.

Mostra que você tentou resolver internamente e foi ignorada. Isso tira o argumento da defesa de que “a diretoria desconhecia os fatos”.

Notificação extrajudicial como ferramenta de alerta

Em casos específicos, nós advogados enviamos uma notificação extrajudicial para a empresa. É um documento formal relatando os abusos e pedindo providências.

Isso gera um desconforto? Sim. Mas também mostra que você não está desamparada juridicamente.

Sinaliza para a empresa que você conhece seus direitos e já tem assessoria legal. Às vezes, isso basta para o assediador ser trocado ou transferido.

Serve também como constituição de prova da ciência do empregador sobre os fatos.

A importância de não pedir demissão por impulso

Eu sei que a vontade é chutar o balde e sair correndo. Mas pedir demissão é o pior cenário financeiro para você.

Você abre mão de muitos direitos.[3] Se a situação está insuportável, consulte um advogado antes de assinar qualquer coisa.

Podemos entrar com o pedido de rescisão indireta e, em alguns casos, conseguir uma liminar para você sair imediatamente sem pedir demissão.

Respire fundo. A estratégia vence a impulsividade. Não dê esse gosto ao assediador de sair perdendo dinheiro.

Terapias aplicadas e indicadas para vítimas[6]

Vencer o processo judicial é importante, mas recuperar sua saúde mental é essencial. O dinheiro da indenização não apaga a memória do trauma.

Por isso, sempre indico aos meus clientes que busquem ajuda especializada. O tratamento deve caminhar junto com o processo jurídico.

Psicoterapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é muito eficaz nesses casos. Ela ajuda você a ressignificar as crenças de incapacidade que o assediador implantou na sua cabeça. Você trabalha focada em identificar pensamentos distorcidos e retomar sua autoestima profissional.

Outra abordagem interessante é a EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento por meio de Movimentos Oculares). É uma terapia focada em trauma. Ajuda o cérebro a processar memórias dolorosas de humilhação, tirando a carga emocional pesada delas. É como se a lembrança deixasse de doer fisicamente.

Práticas integrativas como Mindfulness (Atenção Plena) também ajudam muito no controle da ansiedade e nas crises de pânico, ensinando você a focar no presente e não no medo do futuro.

Lembre-se: procurar justiça é um ato de coragem. Procurar terapia é um ato de amor próprio. Você merece trabalhar em paz. E você tem direitos para garantir isso. Conte comigo nessa jornada.